Libertários deu rosto e sentido aos anarquistas de São Paulo


Entrevista Lauro Escorel

Passados quase 40 anos desde que foi produzido, Libertários (1976), ganhador do prêmio Margarida de Prata da CNBB, mantém intacto seu espírito de filme de agitação. A versão restaurada do documentário dirigido por Lauro Escorel, um dos mais importantes fotógrafos do cinema brasileiro, abriu a mostra Marcos da Memória, organizada pela Cinemateca Brasileira e pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em diálogo com a 37ª Mostra.

“A sessão me deixou feliz e emocionado”, diz Escorel, que há muitos anos não revia o trabalho de juventude. “É um filme militante, que foi exibido muitas e muitas vezes. Eu soube, recentemente, que os garotos do Movimento Passe Live viram o filme. Fiquei orgulhoso disso.” O objetivo da Mostra era recuperar filmes capazes de nos fazer refletir sobre o passado e jogar novas luzes sobre os anos de chumbo. E Libertários, apesar de tratar de outra época – a virada do século 19 para o século 20 –, é parte da história da ditadura militar no Brasil.

O filme foi produzido a partir de um convênio realizado com o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. “Eu havia morado no Chile e, lá, tomei contato com os movimentos operários”, relembra Escorel. “Eu desconhecia a nossa história, mas pensei: se esses movimentos aconteceram na América Latina toda, não é possível que não tenha acontecido no Brasil”. De volta ao País, começou a fazer pesquisas e descobriu que sim, que aqui também tivemos um forte movimento anarquista, encabeçado pelos imigrantes europeus que, em busca de uma vida mais digna, se mudaram do campo para a cidade.

Acontece que, naquele momento, os movimentos operários eram tema proibido no País. A saída, para Escorel, foi buscar abrigo na universidade. Na Unicamp, o projeto, que se propunha, oficialmente, a pesquisar a história da industrialização em São Paulo, foi abraçado pelo professor Paulo Sérgio Pinheiro. Em um artigo sobre Severo Gomes, ministro da Indústria e Comércio do governo Geisel (1974-1979), publicado pela Folha de S.Paulo, Pinheiro conta que, ao ser questionado pelo presidente sobre o porquê de o governo apoiar tal pesquisa, Gomes respondeu: "Presidente, como estudar a indústria sem tratar da história dos operários?".

No mesmo artigo, Pinheiro lembra que o convênio serviu para consolidar o Arquivo de História Social Edgard Leuenroth, o maior do continente hoje, e acrescenta: “Dali saiu o belíssimo filme de Lauro Escorel, Libertários. Lembro-me da projeção do copião no apartamento de Severo, emocionado”.

O filme, de acordo com o Escorel, sequer estava previsto no projeto inicial. Mas, com a ajuda do também fotógrafo Adrian Cooper, ele acabou por transformar os documentos históricos e as preciosas imagens de arquivo – algumas datadas ainda do século 19 – no documentário que agora voltou à tela grande. Para o ano que vem, Escorel planeja lançar um DVD que contenha, além desse precioso documentário de 30 minutos, a história do projeto, entrevistas e novas imagens guardadas nos arquivos da Unicamp.

Ana Paula Sousa



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